Pet com histórico de mordida pode viajar internacionalmente?
Implicações legais de histórico de mordida para viagem internacional com pet. Raças proibidas por país, documentação e o que fazer.
Se o seu cão já mordeu alguém, você provavelmente se pergunta: "ele pode viajar internacionalmente?". A resposta curta é: depende do país de destino e da documentação existente. Não existe uma proibição universal para cães com histórico de mordida, mas alguns países e companhias aéreas têm regras que podem dificultar — ou até impedir — o transporte.
Neste guia, explicamos as implicações legais, quais países restringem cães com histórico de agressividade, e o que você pode fazer para viabilizar a viagem.
Como funciona o registro de mordida no Brasil
Quando um cão morde alguém no Brasil, o evento pode gerar registros em diferentes instâncias:
- Vigilância Sanitária: mordidas devem ser notificadas para monitoramento de raiva. O cão é colocado em observação por 10 dias
- Boletim de Ocorrência: a vítima pode registrar BO na polícia
- Ação judicial: em casos graves, pode haver processo civil (indenização) ou criminal (lesão corporal)
- Centro de Controle de Zoonoses: em alguns municípios, o CCZ pode registrar o evento
A questão crucial é: esses registros são acessíveis internacionalmente? Na maioria dos casos, não. Os registros de mordida no Brasil são locais e não fazem parte da documentação de exportação do animal (CVI/CZI). No entanto, isso não significa que você pode omitir a informação em todos os contextos.
Países que restringem cães com histórico de agressividade
Países com legislação sobre cães perigosos
| País | Legislação | O que acontece com cães com histórico de mordida |
|---|---|---|
| Reino Unido | Dangerous Dogs Act 1991 | Cães "perigosos" podem ser apreendidos. Raças proibidas: Pit Bull, Dogo Argentino, Fila Brasileiro, Tosa Japonês. Histórico de mordida pode resultar em eutanásia ou proibição de entrada |
| Alemanha | Leis estaduais de cães perigosos (Kampfhundeverordnung) | Varia por estado. Algumas regiões exigem avaliação comportamental e seguro de responsabilidade civil obrigatório. Cães com histórico de mordida podem ser classificados como perigosos |
| França | Loi 99-5 (chiens dangereux) | Cães de 1a e 2a categoria têm restrições severas. Histórico de mordida pode impedir a entrada ou exigir avaliação comportamental |
| Espanha | Real Decreto 287/2002 (PPP) | Raças potencialmente perigosas precisam de licença. Histórico de agressividade pode impedir a obtenção da licença |
| Portugal | Decreto-Lei 315/2009 | Cães potencialmente perigosos precisam de licença municipal. Histórico de agressão pode levar à recusa da licença ou exigência de avaliação comportamental |
| Austrália | Dangerous dog legislation (por estado) | Cães declarados perigosos podem ser proibidos de entrar. Histórico de mordida pode ser motivo de recusa |
| Estados Unidos | Varia por estado e cidade (BSL - Breed Specific Legislation) | Não há lei federal sobre cães perigosos, mas algumas cidades e condados proíbem raças específicas ou cães com histórico documentado de mordida |
| Canadá | Varia por província | Ontario proíbe Pit Bulls. Outras províncias têm legislação sobre cães perigosos |
Raças proibidas ou restritas por país
Independentemente do histórico de mordida, algumas raças são proibidas ou restritas em determinados países:
| Raça | Países que proíbem ou restringem |
|---|---|
| Pit Bull Terrier | Reino Unido (proibido), Austrália (proibido em vários estados), Dinamarca, Noruega, parte do Canadá (Ontario) |
| Dogo Argentino | Reino Unido, Austrália, Dinamarca, Noruega, Islândia, Nova Zelândia |
| Fila Brasileiro | Reino Unido, Austrália, Nova Zelândia, Dinamarca, Noruega |
| Tosa Japonês | Reino Unido, Austrália, Dinamarca, Noruega, Islândia |
| Rottweiler | Restrições em partes da Alemanha, Espanha (licença obrigatória), Portugal (licença obrigatória) |
| American Staffordshire | Restrições na França, Alemanha, Espanha, vários países |
A mordida aparece na documentação de viagem?
Na documentação padrão de exportação do Brasil (CVI + CZI), não há campo para histórico comportamental. Os documentos são estritamente sanitários:
- CVI: atesta saúde clínica, vacinas e microchip
- CZI: atesta conformidade sanitária para exportação
- Carteira de vacinação: registro de vacinas
No entanto, existem situações em que o histórico pode surgir:
- Se o país de destino exigir avaliação comportamental: o veterinário pode precisar atestar temperamento do animal
- Se houver processo judicial em andamento: pode haver impedimento legal para retirar o animal do país
- Se a raça for restrita no destino: ao registrar o cão na chegada, autoridades locais podem solicitar histórico
- Se o cão estiver em período de observação: durante os 10 dias de observação pós-mordida, o cão NÃO pode ser transportado
O que as companhias aéreas exigem
Nenhuma companhia aérea pede formalmente um "atestado de bom comportamento" para transporte de animais. No entanto:
- A declaração de não sedação implica que o animal está em condições normais de comportamento
- Se o cão demonstrar agressividade extrema no momento do embarque (latir intensamente, tentar morder funcionários), a companhia pode recusar o transporte por segurança
- Algumas companhias exigem que a caixa IATA tenha reforço extra para raças consideradas mais fortes — parafusos metálicos, zip ties, trancas adicionais
O que fazer se seu cão tem histórico de mordida
Antes de planejar a viagem
- Verifique a legislação do país de destino: pesquise se há lei de cães perigosos e se seu cão (pela raça ou histórico) se enquadra
- Consulte um advogado: se houver processo judicial em andamento no Brasil relacionado à mordida, verifique se há impedimento para transporte do animal
- Resolva pendências legais: quite multas, cumpra obrigações de observação e garanta que não há ordem judicial impedindo a saída do animal
- Faça avaliação comportamental: um veterinário comportamentalista pode avaliar e documentar o temperamento do cão — útil caso o país de destino questione
Preparação prática
- Treinamento: invista em adestramento focado em socialização e controle de impulsos
- Caixa reforçada: use caixa IATA de qualidade superior com travas metálicas robustas
- Focinheira: acostume o cão ao uso de focinheira — pode ser exigida no aeroporto e no país de destino
- Seguro: contrate seguro de responsabilidade civil que cubra danos causados pelo animal no país de destino — obrigatório em muitos países europeus para raças "potencialmente perigosas"
O que acontece na chegada ao destino
Ao chegar no país de destino com um cão de raça restrita ou potencialmente perigoso, você pode precisar:
- Registrar o cão na câmara municipal (obrigatório em Portugal para todas as raças, com exigências adicionais para raças perigosas)
- Obter licença para cão perigoso: em Portugal, Espanha, Alemanha e outros países, raças listadas precisam de licença que inclui seguro, registro criminal limpo do tutor e, em alguns casos, avaliação do cão
- Usar focinheira e trela em espaços públicos: obrigatório para cães de raça restrita em muitos países europeus
- Passar por avaliação comportamental: em casos específicos, a autoridade local pode exigir avaliação por veterinário credenciado
Foco: levar cão "perigoso" para Portugal
Portugal é o destino mais procurado por brasileiros. As regras para cães potencialmente perigosos:
- Raças listadas: Staffordshire Bull Terrier, American Staffordshire, Rottweiler, Dogo Argentino, Fila Brasileiro, Pit Bull Terrier, Tosa Inu e cruzamentos
- Licença obrigatória: obtida na junta de freguesia com apresentação de seguro de responsabilidade civil, registro criminal limpo do tutor e comprovante de condições de alojamento
- Focinheira e trela: obrigatórios em espaços públicos
- Esterilização: pode ser exigida em alguns casos
- Histórico de mordida: não é verificado automaticamente na entrada, mas pode ser relevante ao solicitar a licença — o tutor deve declarar se o cão já foi considerado perigoso
Perguntas frequentes
O Vigiagro verifica se meu cão tem histórico de mordida?
Não. O Vigiagro emite o CZI com base em critérios sanitários (vacinas, microchip, saúde). Não há verificação de histórico comportamental ou de mordidas. A documentação de exportação é exclusivamente sanitária.
E se meu cão mordeu alguém e está em período de observação?
Durante o período de observação de 10 dias (obrigatório para monitoramento de raiva), o cão NÃO pode ser transportado. Aguarde o término do período e a liberação pela vigilância sanitária antes de prosseguir com o planejamento da viagem.
A companhia aérea vai recusar meu cão se souber do histórico?
As companhias aéreas não pedem histórico de mordida. No entanto, se o cão demonstrar agressividade no momento do embarque (tentar morder funcionários, latir descontroladamente), o transporte pode ser recusado por questões de segurança operacional.
Posso ser processado no país de destino se meu cão morder alguém lá?
Sim, e com consequências potencialmente mais severas do que no Brasil. No Reino Unido, a pena pode incluir prisão do tutor e eutanásia do cão. Na Alemanha, multas pesadas e proibição de manter cães. O seguro de responsabilidade civil é essencial.
Meu cão é SRD (sem raça definida) mas parece Pit Bull. Vai ter problema?
Em países como o Reino Unido, a classificação é feita por aparência ("type"), não necessariamente por pedigree. Se o cão aparenta ser de raça proibida, pode ser apreendido para avaliação. Um laudo veterinário atestando que o cão é SRD pode ajudar, mas não é garantia.
Existe algum país que exige especificamente declaração de que o cão nunca mordeu?
Não encontramos exigência formal de declaração de "não mordida" nos formulários de importação dos principais destinos. Porém, ao registrar o cão no país de destino (obrigatório em Portugal, por exemplo), pode haver questionário sobre histórico comportamental.
Posso levar um Pit Bull para Portugal?
Sim, mas com licença especial. Pit Bulls são classificados como raça potencialmente perigosa em Portugal. Você precisará de seguro de responsabilidade civil, licença municipal e uso obrigatório de focinheira e trela em público. A entrada no país não é proibida — mas a posse exige cumprimento das obrigações legais.
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